jusbrasil.com.br
24 de Janeiro de 2021
    Adicione tópicos

    Juiz gaúcho escreve sentença em forma de poesia

    Correio Forense
    Publicado por Correio Forense
    há 12 anos

    Um juiz da Turma Recursal do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decidiu variar e elaborou um acórdão (decisão sobre recursos judiciais) em forma de verso.

    Coube ao juiz Afif Jorge Simões Neto, 49, analisar um pedido de recurso de uma ação indenizatória por danos morais. Um homem de Santana do Livramento, no interior do Estado, moveu a ação por ter se sentido ofendido com um pronunciamento feito na Câmara do município. O réu da ação teria dito no pronunciamento que o autor do pedido não teria feito uma prestação de contas à prefeitura.

    Em primeira instância, o autor venceu a causa, mas o réu recorreu. O juiz Simões Filho acatou o recurso e julgou o pedido improcedente.

    "É um caso que envolvia pessoas ligadas ao tradicionalismo, ao CTG [Centro de Tradicionais Gaúchas]. Como achei que o assunto seria interessante e sei que o gaúcho gosta de verso, de poesia, resolvi fazer essa tentativa", afirmou Simões Neto.

    Mesmo em forma de verso, a decisão não deixa de ser o resultado do trabalho de analisar o caso, enfatizou o magistrado.

    "Fiz um rascunho e vi que daria. Mesmo que seja em verso, eu tive que fazer uma análise do processo, para analisar a eventual culpa de cada um. Só o verso não basta. Tem que fazer o verso em cima da análise do processo. O verso é a forma, mas tive que fazer a análise do conteúdo no próprio verso", disse o juiz.

    Simões Neto tem intimidade com a escrita, além da forma usual sentenças judiciais. Ele afirma que escreve crônicas e tem dois livros publicados, um com suas crônicas e outro da biografia do pai, que era advogado.

    "Meu pai quando era advogado fez ao menos duas defesas em verso, que não é o mesmo que uma sentença. Então eu já tinha uma referência em casa e resolvi me aventurar. Até que recebi elogios" , afirmou.

    O magistrado não teme que sua atitude abra margem para a população ou a comunidade jurídica o considerarem um brincalhão. "É realmente inusitado, que foge do aspecto formal. É que o direito é muito sisudo, estanque. Então resolvi sair dos padrões normais. Eu corro o risco [de não ser levado a sério]. Parece que o rapaz que perdeu a ação achou que foi uma brincadeira. Mas não foi. Julguei de forma séria, como julgo em todos os processos. Apenas o formato foi diferente", disse.

    Veja a decisão em verso do juiz gaúcho:

    "Este é mais um processo

    Daqueles de dano moral

    O autor se diz ofendido

    Na Câmara e no jornal.

    Tem até CD nos autos

    Que ouvi bem devagar

    E não encontrei a calúnia

    Nas palavras do Wilmar.

    Numa festa sem fronteiras

    Teve início a brigantina

    Tudo porque não dançou

    O Rincão da Carolina.

    Já tinha visto falar

    Do Grupo da Pitangueira

    Dançam chula com a lança

    Ou até cobra cruzeira.

    Houve ato de repúdio

    E o réu falou sem rabisco

    Criticando da tribuna

    O jeitão do Rui Francisco

    Que o autor não presta conta

    Nunca disse o demandado

    Errou feio o jornalista

    Ao inventar o fraseado.

    Julgar briga de patrão

    É coisa que não me apraza

    O que me preocupa, isso sim

    São as bombas lá em Gaza.

    Ausente a prova do fato

    Reformo a sentença guerreada

    Rogando aos nobres colegas

    Que me acompanhem na estrada

    Sem culpa no proceder

    Não condeno um inocente

    Pois todo o mal que se faz

    Um dia volta pra gente

    E fica aqui um pedido

    Lançado nos estertores

    Que a paz volte ao seu trilho

    Na terra do velho Flores."

    1 Comentário

    Faça um comentário construtivo para esse documento.

    Não use muitas letras maiúsculas, isso denota "GRITAR" ;)

    Boa... continuar lendo