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15 de Outubro de 2019
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    Assédio moral: taifeiros humilhados na casa dos generais

    Correio Forense
    Publicado por Correio Forense
    há 11 anos

    Motivado por um inquérito civil público aberto em abril pelo Ministério Público Militar em Santa Maria (RS), um grupo de taifeiros de Brasília denuncia situações de constrangimento, humilhações — como gritos e xingamentos, ameaças e punição — e abusos que teriam sofrido em residências de generais do Exército. Embora sejam cozinheiros ou copeiros, eles afirmam que desempenham várias tarefas, como lavar o chão e vasos sanitários, fazer compras em supermercado, trocar roupa de cama e lavar até as calcinhas das mulheres dos generais. O Comando do Exército também estaria atrasando a promoção dos taifeiros para garantir mão-de-obra gratuita na residência dos oficiais mais graduados. O inquérito em andamento no Rio Grande do Sul visa apurar a regularidade da utilização de militares realizando “tarefas de cunho eminentemente doméstico” em residências de superiores hierárquicos.

    Reunidos num grupo, na presença de um procurador militar, eles gravaram entrevistas descrevendo as situações que consideram de abuso e humilhação. Dois deles tiveram o depoimento ao Correio interrompido pelo choro. Relatam que vivem sob tensão, consumindo medicamentos controlados. Todos eles trabalham ou trabalharam na quadra 102 Norte, blocos G e H, onde estão concentrados os apartamentos funcionais dos generais. Eles mostraram fotografias em que aparecem em tarefas como passar roupa e limpar vasos sanitários. “As tarefas são limpar banheiro de general, lavar roupa. A roupa do general, da madame, dos filhos que moram com eles, com netos que moram. Taifeiro lava e passa. Outra coisa: elas não arrumam cama. Quem arruma são os taifeiros. Raramente os generais têm alguma empregada doméstica. Também vamos ao supermercado, empurrar carrinho da madame”, contou um taifeiro.

    Outro taifeiro relatou um fato que considerou humilhante. “Sou o copeiro, fazia o serviço pesado da casa. Fazia a limpeza das residências, a arrumação de móveis. Mas o que mais me chocou foi uma situação humilhante. Uma madame pegou as calcinhas dela, me colocou nas mãos e disse que era para eu lavar. Ela contratou uma passadeira, mas disse que eu desse as roupas lavadas. Então, eu pegava as roupas de cama, às vezes, a cama estava meio sebosa. Tirava do banheiro as calcinhas dela, as cuecas do general. Tinha coleção de cuecas, calcinhas pretas, amarelas, brancas, de renda. Colocava de molho em baldes. Outras peças eu colocava em máquina. Depois, estendia no varal fora da residência. Então, eu fazia arrumação de cama, lavava calcinhas, lavava cinco banheiros.”

    Os taifeiros afirmam que vivem sob pressão, com constantes ameaças de punição. Um deles relatou: “A esposa de um general me ameaçou dizendo: ‘Eu conheço o RDE (Regulamento Disciplinar do Exército), e vocês não me enrolam’. Fui ameaçado várias vezes. Ameaçaram mandar para o quartel, não dar enganjamento: ‘Toma cuidado que o seu enganjamento vence. Toma cuidado que você tem mulher e filhos’”.

    Outro contou que procura não trabalhar no final de semana, porque ganha apenas R$ 1,6 mil e precisa fazer “bicos” para melhorar a renda familiar. Mas, às vezes, os generais exigem que eles trabalhem no domingo: “Aí, tem que trabalhar. Se a gente disser que não vai, é punido”. Eles contam que chegam às residências a partir das 6h, para preparar o café do general. “Geralmente, o general toma café às 7 da manhã. Se você não está lá, é um problema, porque o general não sabe ir na cozinha e fazer o seu próprio café”, comentou um taifeiro. Eles saem das residências normalmente entre 14h e 15h. Alguns ficam até a noite, para preparar e servir o jantar.

    Dedo na cara

    Pequenos erros são motivos para humilhações. “Uma vez, deixei uma carne tostar no forno, e ela foi para a mesa. O general entrou na cozinha, botou o dedo na minha cara, me chamou de moleque, falou que ia me expulsar. Como eu não tinha estabilidade ainda, não podia fazer nada. Ele disse que eu era um soldado e ele um general”, contou um taifeiro.

    Em muitos casos, os taifeiros vão para as residências contra a vontade, segundo contaram: “Uma vez fui para uma residência obrigado. Falei para o general que não era voluntário. Ele falou que não estava perguntando, que estava determinando. Ao chegar lá, fui humilhado pela senhora dele. Ela dizia que eu não sou autoridade, que sou um soldado raso. Isso é constrangedor”, disse. E continuou: “O horário era relativo. Às vezes, saía às 2h (14h); outras vezes, ficava o dia inteiro. Ficava a critério da madame, que determinava tudo. Inclusive, ela era que dava o meu conceito. Para eu ser promovido, tenho que ter o conceito da madame, e não do meu chefe lá no quartel. É humilhante uma situação dessas: um civil dar o conceito para o militar ser promovido”.

    Ele ainda relatou uma punição sofrida. “De uma hora para outra, o general me retornou ao quartel. E lá deram um jeito de eu ser punido. Até hoje me pergunto, por que fui punido? Fiquei humilhado lá no quartel, meus filhos ficaram sabendo… (ele começa a chorar e interrompe o depoimento). Isso emociona a gente. A gente é pai de família. Somos seres humanos, temos sentimento. Eles acham que não, e pisam mesmo. Acham que a gente não tem valor nenhum.”

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